O caleidoscópio da demarcação cientifica

Demarcação científica: a politização do conhecimento

Maurício Moura

Se os critérios clássicos de demarcação falharam em estabelecer padrões universais, as abordagens histórico-sociais emergem precisamente para reconhecer que a validação científica nunca ocorre no vácuo. Continuando nossa série sobre a demarcação científica, este capítulo examina como Thomas Kuhn, Imre Lakatos e pensadores sociais deslocaram o debate da lógica formal para as dinâmicas concretas de produção do conhecimento, um movimento radical que revela a ciência como prática humana, intrinsecamente ligada a contextos históricos e relações de poder.

“As revoluções científicas são precisamente aqueles episódios de desenvolvimento não cumulativo em que um paradigma antigo é substituído total ou parcialmente por um novo, incompatível.”
— Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas (1962)

A arquitetura invisível da Ciência

Thomas Kuhn destruiu a imagem cumulativa e linear do progresso científico ao introduzir o conceito de paradigma como uma constelação de teorias, métodos, valores e exemplares compartilhados por uma comunidade científica 1. Durante períodos de “ciência normal”, os pesquisadores operam dentro desses limites, dedicando-se a resolver quebra-cabeças que o paradigma promete solucionar.

A estabilidade paradigmática é interrompida quando anomalias persistentes se acumulam: fenômenos que resistem à explicação dentro do marco vigente. Essas crises desencadeiam fases de ciência extraordinária, onde surgem teorias rivais e a disciplina mergulha em insegurança epistemológica. A transição para um novo paradigma ocorre através de revolução científica, caracterizada não por acumulação, mas por substituição radical de visões de mundo 1.

O conceito mais provocador de Kuhn é a incomensurabilidade: a ausência de padrões neutros para comparar paradigmas rivais, pois cada um redefine linguagem, métodos e critérios de validade 2. Seguidores do flogisto e da oxidação, por exemplo, atribuíam significados radicalmente diferentes a “combustão”. Consequentemente, as revoluções dependem de fatores extra-racionais, como persuasão retórica, adesão de novas gerações e contexto histórico, além da pura lógica.

Por exemplom, no geocentrismo ptolomaico, “planeta” incluía Sol e Lua. No heliocentrismo, a Terra tornou-se planeta e o Sol, centro estático. Essa não foi mera correção astronômica, mas redefinição ontológica completa do cosmos 1.

A anatomia do progresso científico

Imre Lakatos buscou um meio-termo entre o dogmatismo popperiano e o relativismo kuhniano através dos programas de pesquisa científica. Cada programa estrutura-se em um núcleo duro (hipóteses irrefutáveis por decisão metodológica) e um cinturão protetor de hipóteses auxiliares ajustáveis 3.

A vitalidade de um programa depende de sua heurística positiva (como expandir o cinturão protetor para novas predições) e heurística negativa (proibir ataques diretos ao núcleo duro). Avalia-se um programa por sua progressividade: gera fatos novos e aumenta precisão preditiva? Ou apenas se adapta a anomalias (ajustes ad hoc), mostrando regressividade? 4

Um exemplo: o programa newtoniano sobreviveu séculos através de ajustes no cinturão protetor (ex.: descoberta de Netuno para explicar anomalias orbitais). Já a relatividade geral surgiu como programa progressivo, predizendo fenômenos novos como a deflexão da luz gravitacional, corroborada por Eddington em 1919 3.

Quando raça, classe e gênero determinam a Verdade

As abordagens sociais radicalizam a crítica ao demonstrar como relações de poder interseccionais conformam a produção e validação do conhecimento.

Danièle Kergoat introduz o conceito de consubstancialidade para descrever a interdependência estrutural entre relações de gênero, classe e raça 5. Na pesquisa médica, por exemplo, a sub-representação de mulheres negras em ensaios clínicos reflete dinâmicas consubstanciais que marginalizam grupos específicos.

Stuart Hall analisa a raça como construção discursiva, destacando seu caráter de “significante flutuante” constantemente rearticulado por práticas culturais e institucionais 6. Na demarcação científica, isso se manifesta quando teorias racializantes (como o determinismo biológico do século XIX) legitimam hierarquias epistêmicas, desqualificando saberes não europeus como “não científicos”.

O caso brasileiro: democracia racial epistêmica

Clóvis Moura examina a articulação raça-classe no contexto brasileiro, demonstrando como o racismo estrutural opera como mecanismo de exploração econômica e epistêmica 7. Em Dialética Radical do Brasil Negro, argumenta que a ideologia da “democracia racial” mascara a exclusão de intelectuais negros, relegando suas contribuições ao status de “folclore” ou “crença”.

A cientificidade como arena política

Kuhn, Lakatos e os teóricos sociais demonstram que a demarcação científica é inevitavelmente contextual, histórica e política. Seus modelos superam o reducionismo dos critérios clássicos ao:

  1. Incorporar historicidade — a validade emerge de processos dinâmicos, não de critérios atemporais
  2. Reconhecer complexidade social — relações de poder estruturam quais teorias são legitimadas
  3. Aceitar pluralidade epistêmica — diferentes domínios exigem critérios distintos de validação

No próximo artigo, examinaremos os critérios contemporâneos, do modelo sistêmico de Bunge às abordagens híbridas, que tentam operacionalizar essas insights sem cair no relativismo absoluto.

“A objetividade não é a negação da posicionalidade, mas sua consequência.”
— Sandra Harding, Objectivity and Diversity (2015)

Leia aqui o artigo completo em Academia.edu


Notas:

  1. KUHN, T. S. A Estrutura das Revoluções Científicas. 12ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2013. ↩︎ ↩︎ ↩︎
  2. KUHN, T. S. The Road since Structure. Chicago: University of Chicago Press, 2002. ↩︎
  3. OLIVEIRA, M. B. D. Sobre o problema da demarcação. Trans/form/ação, v. 5, p. 85-101, 1982. ↩︎ ↩︎
  4. CARVALHO, R. R. As três fases do problema da demarcação. Griot: Revista de Filosofia, v. 22, n. 1, p. 227-250, 2022. ↩︎
  5. KERGOAT, D. Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais. Novos estud. – CEBRAP, n. 86, p. 93-103, 2010. ↩︎
  6. HALL, S. Que “negro” é esse na cultura negra? In: ______. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. ↩︎
  7. MOURA, C. Dialética Radical do Brasil Negro. 2ª ed. São Paulo: Anita Garibaldi, 2014. ↩︎

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